{"id":8510,"date":"2020-01-30T19:06:56","date_gmt":"2020-01-30T19:06:56","guid":{"rendered":"https:\/\/memoriasdeumadvogado.com\/?p=8510"},"modified":"2024-11-24T22:07:52","modified_gmt":"2024-11-24T22:07:52","slug":"o-rotulo-da-rejeicao-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriasdeumadvogado.com\/?p=8510","title":{"rendered":"O r\u00f3tulo da rejei\u00e7\u00e3o da morte"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><center><\/center>\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.pinimg.com\/originals\/33\/ca\/3b\/33ca3b10f1ce712c9de346a280809628.jpg\" alt=\"Resultado de imagem para versos sobre morte\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Este artigo apresenta uma releitura de parte da obra de Elizabeth Ross, uma das autoras mais citadas sobre a quest\u00e3o da terminalidade da vida, do luto e do morrer. Sua obra tem sido de grande contribui\u00e7\u00e3o tanto para os profissionais de sa\u00fade como para pais, m\u00e3es, filhos, parentes, leigos e religiosos que vivenciam o luto. Tamb\u00e9m tem sido alvo de controv\u00e9rsias relacionadas a quest\u00f5es \u00e9ticas e quanto a seu rigor cient\u00edfico. Os livros aqui comentados s\u00e3o:\u00a0<b>On death and dying<\/b>\u00a0(Sobre A morte e o morrer, de 1969);\u00a0<b>Questions and answers on death and dying<\/b>\u00a0(Perguntas e respostas sobre a morte e o morrer, de 1971);\u00a0<b>Living with death and dying<\/b>(Vivendo com a morte e os moribundos, de 1981);\u00a0<b>On children and death<\/b>\u00a0(Sobre as crian\u00e7as e a morte, de 1983);\u00a0<b>On life after death<\/b>\u00a0(Sobre a vida depois da morte, de 1991) e\u00a0<b>Life lessons<\/b>\u00a0(Li\u00e7\u00f5es de vida, de 2000).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Elisabeth Kubler-Ross, psiquiatra su\u00ed\u00e7o-americana, uma entre trig\u00eameos, nascida com pouco mais de novecentos gramas, desde o in\u00edcio da vida sentiu que precisaria trabalhar duro para provar que merecia viver. Marcada na adolesc\u00eancia pelos horrores da Segunda Guerra, prometeu &#8211; e cumpriu &#8211; trabalhar na Pol\u00f4nia e na R\u00fassia, ajudando nos primeiros socorros aos necessitados. A\u00ed come\u00e7ava seu interesse pela morte e o morrer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Ela viu de perto os campos de concentra\u00e7\u00e3o, os cremat\u00f3rios, os vag\u00f5es de milhares de sapatinhos de beb\u00eas e de cabelos de v\u00edtimas do holocausto que serviriam de enchimento para travesseiros na Alemanha. Depois disso, nunca mais foi a mesma. Mais que isso, percebeu a desumanidade do ser humano e o potencial de cada indiv\u00edduo para, segundo suas palavras, se tornar um monstro nazista ou uma Madre Teresa de Calcut\u00e1. Considerava que todos n\u00f3s temos que tomar conhecimento desses aspectos internos, bons e maus.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Kubler-Ross planejava trabalhar na \u00cdndia, mas foi demovida de seu plano original por ter-se casado com um americano que a levou para residir em Nova Iorque, \u00faltimo lugar em sua lista de prefer\u00eancias. L\u00e1, insatisfeita e infeliz, identificou-se com a solid\u00e3o desesperada dos pacientes que atendia em um hospital de emerg\u00eancias. Diante de sua presen\u00e7a e disponibilidade, eles come\u00e7avam a falar e a compartilhar seus sentimentos e hist\u00f3rias. Ela tinha dificuldades em compreender o ingl\u00eas que eles falavam, mas &#8211; e ainda que soubesse pouco de psiquiatria &#8211; entendeu a linguagem da alma daquelas pessoas. Para Kubler-Ross, aquelas viv\u00eancias n\u00e3o foram mera coincid\u00eancia e prenunciavam o trabalho que viria a fazer mais tarde em sua carreira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Em 1969, publicou o livro intitulado\u00a0<i>On death and dying<\/i><sup>1<\/sup>, o primeiro de uma s\u00e9rie que iria projet\u00e1-la pelo mundo como especialista num assunto tabu para as sociedades ocidentais. Traduzido para trinta l\u00ednguas, sua obra foi al\u00e9m da descri\u00e7\u00e3o dos cinco est\u00e1gios (nega\u00e7\u00e3o, raiva, barganha, depress\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o) pelos quais passam os pacientes diante de uma doen\u00e7a fatal ou que potencialmente ameace a vida. Em seus estudos de caso, dissecou situa\u00e7\u00f5es relacionais entre a equipe, os pacientes, seus familiares e entre os pr\u00f3prios profissionais. A autora considerava que o conhecimento te\u00f3rico era importante, mas que ele de nada valia se n\u00e3o se trabalhasse com o cora\u00e7\u00e3o e a alma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Seu livro\u00a0<i>Questions and answers on death and dying<\/i><sup>2<\/sup>, publicado em 1974, cont\u00e9m exemplos de situa\u00e7\u00f5es vividas em sua atividade na cl\u00ednica. Compila as perguntas mais frequentes respondidas por ela nos cinco anos seguintes ao lan\u00e7amento do primeiro livro, durante os cerca de setecentos grupos de trabalho, semin\u00e1rios e congressos que ministrou.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Nesse livro, Kubler-Ross aborda assuntos importantes como a interdisciplinaridade, os aspectos comunicacionais envolvidos na transmiss\u00e3o de not\u00edcias dif\u00edceis, o respeito \u00e0 autonomia dos pacientes e a import\u00e2ncia da fam\u00edlia como parte da equipe em coparticipa\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de projetos terap\u00eauticos singulares, entre outros. E ainda que n\u00e3o utilize qualquer desses termos, ela foi al\u00e9m da teoria, mostrando, com os relatos de suas viv\u00eancias na cl\u00ednica, o \u00e2mago din\u00e2mico de cada um desses conceitos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Em\u00a0<i>Living with death and dying<\/i><sup>3<\/sup>\u00a0de 1981, pela via dos exemplos da pr\u00e1tica cl\u00ednica, Kubler-Ross repete o formato de livros anteriores, mostrando os entraves e as solu\u00e7\u00f5es para a melhor abordagem junto a essas pessoas. O livro traz uma reflex\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 sobre pacientes terminais, mas sobre adultos, crian\u00e7as saud\u00e1veis e seus familiares em outras situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, tais como diante da perda inesperada dos entes queridos, por desaparecimento, acidente, assassinato ou suic\u00eddio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Naquele final de s\u00e9culo XX, a autora j\u00e1 discutia a transi\u00e7\u00e3o do modelo de assist\u00eancia em sa\u00fade estritamente hospitalar e biom\u00e9dico para o modelo domiciliar ou de\u00a0<i>hospices<\/i>. Refor\u00e7ava a import\u00e2ncia do tratamento hol\u00edstico e discutia a relut\u00e2ncia das equipes em administrar todos os recursos poss\u00edveis para aliviar as insuport\u00e1veis dores f\u00edsicas e emocionais dos doentes. Dizia que a regra de ouro nesse novo modelo de atendimento era levar em conta a opini\u00e3o dos pacientes sem julg\u00e1-los, mas ajudando-os a fazer suas escolhas. Ressaltava tamb\u00e9m que os membros da fam\u00edlia precisam ser t\u00e3o cuidados e orientados quanto o pr\u00f3prio paciente, para que se evite seu adoecimento emocional ao longo de todo o processo, do diagn\u00f3stico ao tratamento e no evento final.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Em sua obra, a autora n\u00e3o sistematiza seu conhecimento nem prop\u00f5em f\u00f3rmulas ou protocolos: o que ela faz \u00e9 uma alus\u00e3o \u00e0 necessidade de preparo dos profissionais para lidar com essas circunst\u00e2ncias, sem, no entanto, explicitar como prepar\u00e1-los &#8211; provavelmente (se depreende) utilizando seu modelo de semin\u00e1rios, congressos e mesmo fitas e livros publicados. Tudo indica que, pela maneira com que lidava com a linguagem simb\u00f3lica (especialmente no caso dos desenhos de crian\u00e7as) e pela forma como tinha acesso ao inconsciente dessas pessoas, possa ter havido uma forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise cl\u00e1ssica ampliando, assim, sua vis\u00e3o do mundo emocional para al\u00e9m das teorias da psiquiatria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Nesse \u00faltimo livro, o cap\u00edtulo escrito pela m\u00e3e de um paciente j\u00e1 alerta para a import\u00e2ncia da simetria nas rela\u00e7\u00f5es com a equipe, especialmente nos casos mais graves e com reinterna\u00e7\u00f5es prolongadas, quando a exposi\u00e7\u00e3o dos diversos atores \u00e9 ainda maior. Percebe-se que, naquele tempo, Kubler-Ross colocava \u00eanfase no que hoje, segundo a humaniza\u00e7\u00e3o em sa\u00fade, chamar\u00edamos de\u00a0<i>projeto terap\u00eautico singular<\/i>\u00a0e de\u00a0<i>cl\u00ednica ampliada<\/i>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Em 1983, a autora dedica\u00a0<i>On children and death<\/i><sup>4<\/sup>\u00a0aos casos de crian\u00e7as, no qual aborda as mudan\u00e7as das sociedades ocidentais diante do nascimento de um novo membro da fam\u00edlia. O que antes era um acontecimento compartilhado pela comunidade agora \u00e9 vivido como uma interrup\u00e7\u00e3o dos planos dos pais. Do ponto de vista de Kluber-Ross, o parto foi medicalizado e, no fundo, ela aponta para a diminui\u00e7\u00e3o do contato entre os seres humanos, sobretudo quando as situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas da vida e da morte n\u00e3o s\u00e3o discutidas e elaboradas pelos que as vivenciam. Novamente utilizando como exemplos os casos que acompanhou e depoimentos pessoais &#8211; prestados em seus semin\u00e1rios ou mesmo em cartas que recebia -, a autora discorre sobre o adoecimento e os v\u00e1rios tipos de morte em crian\u00e7as e adolescentes: das resultantes de doen\u00e7as graves \u00e0s inesperadas, e suas respectivas repercuss\u00f5es sobre as fam\u00edlias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Kubler-Ross abordava os pequenos por meio de desenhos que eles produziam durante os contatos com ela, e os interpretava como sonhos, numa alus\u00e3o n\u00e3o expl\u00edcita \u00e0 prov\u00e1vel influ\u00eancia dos estudos de Freud sobre o inconsciente e a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos. Usando uma linguagem simb\u00f3lica, metaf\u00f3rica, Kubler-Ross respondia \u00e0s perguntas das crian\u00e7as \u00e0 medida que elas iam se apercebendo de suas dram\u00e1ticas realidades. A autora considerava que as crian\u00e7as tinham mais clareza quanto ao seu estado do que se supunha e, portanto, estavam expostas tamb\u00e9m a uma dor e a um sofrimento maiores pelo fato de n\u00e3o poderem partilhar suas d\u00favidas, ang\u00fastias e pensamentos com outras pessoas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Nesse livro ela come\u00e7a a revelar sua interpreta\u00e7\u00e3o espiritualizada da morte e do morrer. \u00c9 na conversa com as crian\u00e7as &#8211; que, para a autora, precisam ser respeitadas como pessoas e t\u00eam o direito de conhecer sua condi\u00e7\u00e3o por meio de informa\u00e7\u00e3o honesta e aberta &#8211; que Ross come\u00e7a a usar a met\u00e1fora do casulo e da borboleta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Para ela, o corpo f\u00edsico \u00e9 a morada tempor\u00e1ria da alma ou entidade que se liberta, como uma borboleta do casulo, para habitar uma dimens\u00e3o atemporal, na qual n\u00e3o h\u00e1 dor nem sofrimento; onde s\u00f3 h\u00e1 beleza, prazer e plenitude; onde a pessoa \u00e9 recebida por um ente querido que j\u00e1 tenha feito o que ela chamava de\u00a0<i>transi\u00e7\u00e3o<\/i>, e onde nunca se est\u00e1 s\u00f3. Essas ideias provocaram rea\u00e7\u00f5es da comunidade cient\u00edfica, que considerava estar Kubler-Ross se afastando dos rigores metodol\u00f3gicos acad\u00eamicos. A autora tamb\u00e9m aborda as consequ\u00eancias tr\u00e1gicas do luto mal elaborado dos pais e irm\u00e3os e a necessidade de trat\u00e1-los por meio da escuta acurada e de orienta\u00e7\u00e3o familiar para prevenir o adoecimento emocional, ajudando-os a superar a perda. No mesmo livro, h\u00e1 um cap\u00edtulo com v\u00e1rias cartas e depoimentos de pais narrando suas lutas internas para compreender a morte dos filhos, para dar destino a seus sentimentos e continuar a viver.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Quando a autora escreve sobre os profissionais, suas vicissitudes, erros e acertos, oferece-nos uma detalhada descri\u00e7\u00e3o do que hoje chamamos e esperamos que seja a reflex\u00e3o em busca do atendimento humanizado em sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><i>On life after death<\/i><sup>5<\/sup>, de 1991, foi escrito na vig\u00eancia das sequelas dos acidentes vasculares cerebrais sofridos pela autora. Naquele momento, ela se encontrava em uma cadeira de rodas, fisicamente dependente para realizar v\u00e1rias atividades di\u00e1rias. Na abertura do livro ela endere\u00e7a um \u00e1cido recado a seus detratores: ao inv\u00e9s de tentar convenc\u00ea-los quanto \u00e0 exist\u00eancia de vida ap\u00f3s a morte, Kubler-Ross escreve que provavelmente estar\u00e1 presente na outra vida no momento em que eles ir\u00e3o constatar, pessoalmente, as convic\u00e7\u00f5es dela sobre o al\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Os estudos da autora sobre as experi\u00eancias de quase morte fortaleceram sua cren\u00e7a numa inst\u00e2ncia superior e et\u00e9rea, descrita por pessoas que estiveram clinicamente em estado cr\u00edtico, assunto estudado at\u00e9 hoje. E, em raz\u00e3o dessa abordagem, Kubler-Ross foi questionada pela comunidade cient\u00edfica. Contra o argumento &#8211; que ent\u00e3o prevalecia &#8211; de que essa experi\u00eancia se devia \u00e0 falta de aporte de oxig\u00eanio ao c\u00e9rebro, causando ilus\u00f5es preenchidas por desejos do paciente, ela citava os casos de pessoas cegas que durante o estado de quase morte puderam ver e, posteriormente, descrever os profissionais que haviam atuado em seu socorro. Sofrendo as press\u00f5es da comunidade cient\u00edfica e na imin\u00eancia de abandonar a coordena\u00e7\u00e3o de seus famosos semin\u00e1rios, ela pr\u00f3pria diz ter vivido o encontro com uma de suas pacientes, morta dez anos antes, que lhe pediu para n\u00e3o encerrar a atividade naquele momento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Al\u00e9m dessa, a autora descreve outra experi\u00eancia pessoal naquilo que chamava de\u00a0<i>consci\u00eancia c\u00f3smica,\u00a0<\/i>citando haver caminhado por um vale sem tocar os p\u00e9s no ch\u00e3o. Saindo desse estado mental lhe vieram \u00e0 mente as palavras\u00a0<i>Shanti Nilaya,<\/i>\u00a0que &#8211; mais tarde veio a saber &#8211; significavam &#8220;\u00faltima morada da paz&#8221;. A express\u00e3o tornou-se depois o nome da institui\u00e7\u00e3o fundada por ela na Calif\u00f3rnia para cuidar de pacientes terminais e das v\u00edtimas da ent\u00e3o nov\u00edssima e pouco conhecida epidemia de Aids.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><i>Life lessons<\/i><sup>6<\/sup>, de 2000, escrito em parceria com Davi Kessler &#8211; tamb\u00e9m especialista no tema da morte e do morrer -, \u00e9 seu primeiro livro sobre a vida e o viver. Das experi\u00eancias com os pacientes e familiares ela tira li\u00e7\u00f5es sobre autenticidade, amor, rela\u00e7\u00f5es pessoais, perda, for\u00e7a, tempo, medo, raiva, lazer, paci\u00eancia, rendi\u00e7\u00e3o, perd\u00e3o e felicidade. Os autores mant\u00eam a f\u00f3rmula dos livros anteriores de Ross, repletos de exemplos de situa\u00e7\u00f5es vividas por pessoas diante de uma perda ou de outros acontecimentos tr\u00e1gicos. Kubler-Ross conclui que, ao estudar a morte, ela aprendeu mais sobre a vida e seus mist\u00e9rios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">A autora foi acusada pela comunidade cient\u00edfica de se ter autopromovido por meios pouco \u00e9ticos, acusa\u00e7\u00e3o que recai no fato de apenas na bibliografia ela ter citado os profissionais pioneiros nesse campo que j\u00e1 vinham trabalhando e publicando estudos sobre as mudan\u00e7as necess\u00e1rias no tratamento de pacientes terminais. Com isso, segundo seus cr\u00edticos, a autora fez com que leitores apressados e menos criteriosos atribu\u00edssem a ela todos os m\u00e9ritos sobre o assunto. Mesmo os cinco est\u00e1gios experimentados por doentes diante da morte teriam sido uma apropria\u00e7\u00e3o de trabalhos de Robertson e Bolby<sup>7<\/sup>\u00a0sobre a rea\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as afastadas de suas m\u00e3es. Os cr\u00edticos de Kubler-Ross tamb\u00e9m referem seu isolamento e dificuldades em trabalhar com os demais profissionais que vinham lutando pela melhoria no atendimento e cuidado dos pacientes terminais<sup>8<\/sup>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Para seus defensores, debater os detalhes e a validade de suas teses ou seu flerte com a espiritualidade \u00e9 perder de vista o centro do seu trabalho. Com um \u00fanico livro e uma vigorosa campanha proselitista, Kubler-Ross permitiu o debate mais aberto sobre nosso maior medo e \u00fanica certeza: a morte<sup>9<\/sup>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Se h\u00e1 um valor incontest\u00e1vel em seus livros \u00e9 o de colocar em relevo a subjetividade das pessoas, lidando corajosamente com ela. N\u00e3o h\u00e1 teorias, estat\u00edsticas, esquemas, protocolos ou receitas de como lidar com a dor da perda, embora a autora admita a necessidade de haver um preparo dos profissionais para que eles possam atuar em tal fun\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\">O que h\u00e1 s\u00e3o tocantes hist\u00f3rias de sofrimento e supera\u00e7\u00e3o, de compartilhamento e amadurecimento sobre os quais ela trabalha, lan\u00e7ando luz sobre a pr\u00e1tica e tornando os debates sobre os assuntos sobre a morte e o morrer tang\u00edveis para profissionais e leigos. Para Elisabeth Kubler-Ross, essas experi\u00eancias s\u00e3o, sobretudo, oportunidades de crescimento pessoal.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0<img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/encrypted-tbn0.gstatic.com\/images?q=tbn:ANd9GcT_6J4RfmgVBDHrWdBf_esjt52aEIP7bJbUZrT8upYi_QWSMOHX&amp;s\" alt=\"Resultado de imagem para lasciate ogni speranza voi ch'entrate\" \/><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0(locu\u00e7\u00e3o\u00a0italiana\u00a0que\u00a0significa\u00a0&#8220;deixai\u00a0toda\u00a0a\u00a0esperan\u00e7a,\u00a0\u00f3\u00a0v\u00f3s\u00a0que\u00a0entrais&#8221;)\u00a0<span style=\"font-weight: 300;\">Inscri\u00e7\u00e3o\u00a0que,\u00a0no\u00a0poema\u00a0de\u00a0Dante,\u00a0se\u00a0acha\u00a0colocada\u00a0na\u00a0porta\u00a0do\u00a0Inferno.<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<table width=\"750\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">D<\/span>urante o Imp\u00e9rio Novo (c. de 1550 a 1070 a.C.) a maior parte das f\u00f3rmulas dos\u00a0<i>textos dos sarc\u00f3fagos<\/i>, acrescidas de diversas estrofes novas, passaram a ser escritas em rolos de papiro, os quais eram colocados nos ata\u00fades ou em algum local da c\u00e2mara sepulcral, geralmente em um nicho cavado com essa finalidade. Quando postos no sarc\u00f3fago costumavam ser encaixados entre as pernas dos corpos, logo acima dos tornozelos ou perto da parte superior das coxas, antes de serem passadas as bandagens. Tais textos, que formam um conjunto com cerca de 200 estrofes referentes ao mundo do al\u00e9m-t\u00famulo, ilustrados com desenhos para ajudar o defunto na sua viagem para a eternidade, foram intitulados pelos modernos arque\u00f3logos de\u00a0<i>Livro dos Mortos<\/i>. Entretanto, conforme explica o especialista em hist\u00f3ria antiga, A. Abu Bakr,\u00a0<i>esse t\u00edtulo \u00e9 at\u00e9 certo ponto enganoso: na verdade, nunca existiu um &#8220;livro&#8221; desse g\u00eanero; a escolha das estrofes escritas em cada papiro variava segundo o tamanho do rolo, a prefer\u00eancia do adquirente e a opini\u00e3o do sacerdote-escriba que as transcrevia. Um &#8220;Livro dos Mortos&#8221; m\u00e9dio continha entre 40 e 50 estrofes.<\/i><span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">P<\/span>ara os eg\u00edpcios esse conjunto de textos era considerado como obra do deus Thoth. As f\u00f3rmulas contidas nesses escritos podiam garantir ao morto uma viagem tranquila para o para\u00edso e, como estavam grafadas sobre um material de baixo custo, permitiam que qualquer pessoa tivesse acesso a uma terra bem-aventurada, o que antes s\u00f3 estava ao alcance do rei e da nobreza. Em verdade, essa compila\u00e7\u00e3o de textos era intitulada pelos eg\u00edpcios de\u00a0<i>Cap\u00edtulos do Sair \u00e0 Luz<\/i>\u00a0ou\u00a0<i>F\u00f3rmulas para Voltar \u00e0 Luz (Reu nu pert em hru)<\/i>, o que por si s\u00f3 j\u00e1 indica o esp\u00edrito que presidia a reuni\u00e3o dos escritos, ainda que desordenados. Era objetivo desse comp\u00eandio, nos ensina o historiador Maurice Crouzet,\u00a0<i>fornecer ao defunto todas as indica\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para triunfar das in\u00fameras armadilhas materiais ou espirituais que o esperavam na rota do &#8220;ocidente&#8221;.<\/i><span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">A<\/span>s cenas do julgamento do falecido fazem parte daquela rota e, portanto, de tais papiros. A decis\u00e3o era tomada no\u00a0<i>Sagu\u00e3o das Duas Verdades<\/i>, um grande sal\u00e3o no qual ficava uma grande balan\u00e7a destinada a pesar o cora\u00e7\u00e3o do morto. A solenidade \u00e9 assim resumida pelo egipt\u00f3logo Kurt Lange: Os\u00edris<i>, senhor da eternidade, est\u00e1 sentado como um rei no seu trono. Tem em suas m\u00e3os o cetro e o leque. Por tr\u00e1s dele, mant\u00eam-se habitualmente suas irm\u00e3s<\/i>\u00a0\u00cdsis\u00a0<i>e<\/i>\u00a0N\u00e9ftis<i>. Na outra extremidade, v\u00ea-se a deusa da justi\u00e7a,<\/i>\u00a0Maat<i>, introduzir o morto ou a morta. No meio do quadro est\u00e1 desenhada a grande balan\u00e7a em que o peso do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 comparado ao duma pluma de avestruz, s\u00edmbolo da verdade. A pesagem \u00e9 confiada a<\/i>\u00a0H\u00f3rus\u00a0<i>e ao guardi\u00e3o das m\u00famias, de cabe\u00e7a de chacal,<\/i>\u00a0An\u00fabis<i>. O deus<\/i>\u00a0Thoth<i>, de cabe\u00e7a de \u00edbis, senhor da sabedoria e da escrita, anota o resultado da pesagem sobre um papiro, por meio de um c\u00e1lamo. Quarenta e dois ju\u00edzes \u2014 correspondendo quarenta e duas prov\u00edncias do Egito \u2014 assistem \u00e0 opera\u00e7\u00e3o. Diante desse tribunal \u00e9 que o candidato \u00e0 eternidade deve fazer as declara\u00e7\u00f5es nas quais afirma nunca se ter tornado culpado de certo n\u00famero de faltas para com seus semelhantes, para com os deuses, para com sua pr\u00f3pria pessoa e o bem alheio.<\/i>\u00a0Se a senten\u00e7a dos ju\u00edzes fosse favor\u00e1vel ao morto, H\u00f3rus tomava-o pela m\u00e3o e o conduzia ao trono de Os\u00edris, que lhe indicava seu lugar no reino do al\u00e9m. Essa \u00e9 a cena que vemos na ilustra\u00e7\u00e3o do alto da p\u00e1gina. Ela pertence ao Livro dos Mortos de Hunefer, obra origin\u00e1ria de Tebas e datada da XIX dinastia (c. 1307 a 1196 a.C.). Caso contr\u00e1rio, o morto estaria cheio de pecados e, ent\u00e3o, seria comido por um terr\u00edvel monstro, Ammut,\u00a0<i>o devorador dos mortos<\/i>. Tratava-se de uma fera com corpo misto de le\u00e3o, hipop\u00f3tamo e crocodilo: os tr\u00eas maiores animais &#8220;devoradores de homens&#8221; conhecidos pelos antigos eg\u00edpcios. \u00c9 essa figura h\u00edbrida que vemos ao lado de An\u00fabis na foto acima, cujo copyright \u00e9 do Canadian Museum of Civilization Corporation.<span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">A<\/span>\u00a0id\u00e9ia central do\u00a0<i>Livro dos Mortos<\/i>\u00a0\u00e9 o respeito \u00e0 verdade e \u00e0 justi\u00e7a, mostrando o elevado ideal da sociedade eg\u00edpcia. Era cren\u00e7a geral que diante de Os\u00edris de nada valeriam as riquezas, nem a posi\u00e7\u00e3o social do falecido, mas que apenas seus atos seriam levados em conta. Foi justamente no Egito que esse enfoque de que a sorte dos mortos dependia do valor de sua conduta moral enquanto vivo ocorreu pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade.\u00a0<i>Mil anos mais tarde,\u00a0<\/i>\u2014 diz Kurt Lange \u2014\u00a0<i>essa id\u00e9ia altamente moral n\u00e3o se espalhara ainda por nenhum dos povos civilizados que conhecemos. Em Babil\u00f4nia, como entre os hebreus, os bons e os maus eram v\u00edtimas no al\u00e9m, e sem discernimento, das mesmas vicissitudes.<\/i><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">N<\/span>\u00e3o resta d\u00favida de que o julgamento de seus atos ap\u00f3s a morte devia preocupar, e muito, a maioria dos eg\u00edpcios, religiosos que eram.\u00a0<i>Mas<\/i>\u00a0\u2014 pondera Crouzet \u2014\u00a0<i>a prova\u00e7\u00e3o era de tal esp\u00e9cie, que podia ser sobrepujada por uma mem\u00f3ria eficaz, ajudada pelo papiro colocado junto ao cad\u00e1ver, que possibilitaria ao defunto enunciar certas senten\u00e7as soberanas. Como afastar a palavra &#8220;magia&#8221;, e negar que o emprego destas f\u00f3rmulas era considerado suficiente para apagar os erros da vida terrena? \u00c9 claro que o crente era convidado a n\u00e3o comet\u00ea-los: seria a melhor maneira de garantir a sua salva\u00e7\u00e3o futura. Mas nenhuma reserva, em parte alguma, limitava a efic\u00e1cia das receitas de que tratava de munir-se, desde que fosse obstinado, embora culpado.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">\u00c9<\/span>\u00a0preciso que se diga que embora o\u00a0<i>Livro dos Mortos<\/i>\u00a0tenha aparecido grafado em papiros apenas a partir do Imp\u00e9rio Novo, sua origem \u00e9 muito mais antiga, anterior at\u00e9 mesmo ao per\u00edodo din\u00e1stico. Inicialmente, contando apenas com poucas estrofes relativamente simples, adequadas aos costumes de uma \u00e9poca remota, seu conte\u00fado era transmitido de forma oral. Com o aumento da quantidade e da complexidade dos textos, os sacerdotes se viram obrigados a escrev\u00ea-los antes que se perdessem da mem\u00f3ria dos fi\u00e9is. Num processo de c\u00f3pias sucessivas foram introduzidas varia\u00e7\u00f5es e enganos, tanto por equ\u00edvoco na leitura dos caracteres quanto por desleixo, cansa\u00e7o do copista e acr\u00e9scimos feitos pelo pr\u00f3prio escriba interessado em impor sua opini\u00e3o. A c\u00f3pia mais antiga encontrada foi escrita para Nu, filho do\u00a0<i>intendente da casa do intendente do selo, Amen-hetep, e da dona de casa, Senseneb<\/i>. Esse valioso documento, avaliam os arque\u00f3logos, n\u00e3o pode ser posterior ao in\u00edcio da XVIII dinastia (c. de 1550 a.C.). Ele faz refer\u00eancia a datas dos textos que transcreve e uma delas se refere aos idos de um dos fara\u00f3s da I dinastia (c. de 2920 a 2770 a.C.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">F<\/span>oi nos sepulcros de Tebas que os pesquisadores encontraram a maior parte das c\u00f3pias do\u00a0<i>Livro dos Mortos<\/i>. Em tais papiros os comprimentos variam entre 4,57 e 27,43 metros e a largura entre 30,48 e 45,72 cent\u00edmetros. No in\u00edcio do Imp\u00e9rio Novo os textos s\u00e3o sempre escritos com tinta preta e os hier\u00f3glifos dispostos em colunas verticais, separadas entre si por linhas pretas. T\u00edtulos, palavras iniciais dos cap\u00edtulos, rubricas e chamadas s\u00e3o grafadas com tinta vermelha. Os escribas tamb\u00e9m enfeitavam os papiros com vinhetas de tra\u00e7os pretos, \u00e0s vezes copiadas de ata\u00fades e documentos de dinastias bem anteriores como a XI (c. de 2134 a 1991 a.C), por exemplo. A partir da XIX dinastia (c. de 1307 a 1196 a.C.) as vinhetas passaram a ser pintadas com cores muito brilhantes e cresceram de import\u00e2ncia, ao passo que o texto passou a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. Um dos mais belos papiros ilustrados que existem \u00e9 o assim chamado\u00a0<i>Papiro de Ani<\/i>, cujas vinhetas representam cenas mitol\u00f3gicas, nomes de deuses e cenas do julgamento dos mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">N<\/span>o decorrer da XXI e da XXII dinastias (c. de 1070 a 712 a.C.) houve deteriora\u00e7\u00e3o do trabalho de escribas e desenhistas e a qualidade do mesmo diminuiu sensivelmente, al\u00e9m de ter havido altera\u00e7\u00f5es no conte\u00fado dos textos. Outros temas n\u00e3o relacionados com o mundo dos mortos, como a cria\u00e7\u00e3o do mundo, por exemplo, foram inclu\u00eddos nos papiros dessa \u00e9poca. \u00c0s vezes o texto nada tem a ver com a vinheta que o acompanha. Nesse per\u00edodo tamb\u00e9m se estabeleceu o costume de encher com os papiros figuras ocas de madeira do deus Os\u00edris, as quais eram colocadas nos t\u00famulos. Quando os papiros diminu\u00edram de tamanho, passaram a ser armazenados em cavidades menores nas bases de tais figuras. Do final da XXII dinastia em diante, at\u00e9 o in\u00edcio da XXVI dinastia (664 a.C.) ocorreu um per\u00edodo de desordem e tumulto. Os sacerdotes perderam gradualmente o seu poder religoso e temporal e a crise provocou redu\u00e7\u00e3o das despesas com cerim\u00f4nias funer\u00e1rias, tendo ca\u00eddo em desuso o costume de se fazer c\u00f3pias do\u00a0<i>Livro dos Mortos<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: fuchsia; font-size: medium;\">Q<\/span>uando os fara\u00f3s da XXVI dinastia assumiram o poder houve uma renova\u00e7\u00e3o dos antigos costumes mortu\u00e1rios, templos foram restaurados e textos antigos esquecidos foram relembrados e novamente copiados. No que se refere ao\u00a0<i>Livro dos Mortos<\/i>\u00a0tais c\u00f3pias passaram a ser feitas de forma sistem\u00e1tica. Os cap\u00edtulos passaram a ter uma ordem fixa, mantidos na mesma ordem relativa nos diversos papiros, ainda que alguns contivessem mais texto do que os outros, e quatro cap\u00edtulos novos foram acrescentados, refletindo as novas id\u00e9ias religiosas da \u00e9poca. Esses escritos continuaram a ser usados durante o per\u00edodo ptolomaico (304 a 30 a.C.). Nessa \u00e9poca, por\u00e9m, s\u00f3 eram grafados os textos que se acreditava absolutamente necess\u00e1rios \u00e0 salva\u00e7\u00e3o do morto. Textos que refletiam uma mitologia h\u00e1 muito esquecida eram ignorados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Termino o texto\u00a0com uma frase de Walter Osswald: \u201ctalvez a pessoa idosa nunca tenha lido Fernando Pessoa e n\u00e3o saiba que&#8221;<em>A morte \u00e9 a curva da estrada\/morrer \u00e9 n\u00e3o ser visto\u2019. Mas sentir\u00e1 a necessidade de, antes de dobrar a curva, reavaliar a sua rela\u00e7\u00e3o com aqueles que o deixar\u00e3o de ver&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota&#x2660; Uns dizem que a morte \u00e9 a extin\u00e7\u00e3o da vida, outros que \u00e9 o desaparecimento dos processos vitais, ou qu\u00edmicos, por\u00e9m, compartilho com a vis\u00e3o filos\u00f3fica <strong><em>de que a morte \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o dos elos da cadeia infinita.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps&#x2663; Viva, de modo que voc\u00ea n\u00e3o tenha que olhar para tr\u00e1s e dizer: Meu Deus, como desperdicei a minha vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A GIRAFA    Os 5 est\u00e1gios diante da perda, luto morte ou trag\u00e9dia\" width=\"584\" height=\"438\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5mejhMHg10M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00a0 Este artigo apresenta uma releitura de parte da obra de Elizabeth Ross, uma das autoras mais citadas sobre a quest\u00e3o da terminalidade da vida, do luto e do morrer. 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