{"id":6034,"date":"2018-11-12T20:47:44","date_gmt":"2018-11-12T20:47:44","guid":{"rendered":"https:\/\/memoriasdeumadvogado.com\/?p=6034"},"modified":"2022-11-14T15:10:46","modified_gmt":"2022-11-14T15:10:46","slug":"a-pequena-vendedora-de-fosforos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriasdeumadvogado.com\/?p=6034","title":{"rendered":"A pequena vendedora de f\u00f3sforos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/image.slidesharecdn.com\/vendedoradefsforos-180106003947\/95\/a-pequena-vendedora-de-fsforos-1-638.jpg?cb=1515199427\" alt=\"Imagem relacionada\" \/><\/p>\n<blockquote>\n<p id=\"MTAyMjI\">Os sonhos s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o falsificadas da atividade criativa inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><a href=\"https:\/\/www.pensador.com\/autor\/carl_jung\/\"><span style=\"color: #808080;\">Carl Jung<\/span><\/a><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Contos de Fada s\u00e3o escritos para entreter as crian\u00e7as. Mas gra\u00e7as a eles conseguimos entender as manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente humano. \u00c9 uma esp\u00e9cie de anatomia da psique. Tramas por tr\u00e1s das narrativas gerando aprendizado que nos auxilia a desenvolver nossas potencialidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aprendemos muito com eles. A Cinderela nos faz entender o amor como um p\u00e9 de sapato de cristal que carregamos e mostra a luta para encontrar esse outro que se ajusta como um belo par. O limite do tempo, quando \u00e0 meia-noite acaba o encantamento, nos deixa a pensar que n\u00e3o devemos ultrapassar o limite que mant\u00e9m esse estado de ilus\u00e3o dentro de uma rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rapunzel ensina o quanto \u00e9 dif\u00edcil conseguirmos amar o outro aprisionado por uma m\u00e3e-bruxa que dificulta a aproxima\u00e7\u00e3o que lhe amea\u00e7a roubar o \u00fanico v\u00ednculo afetivo de sua vida. Os Tr\u00eas Porquinhos dosam a brincadeira com um trabalho s\u00e9rio para enfrentar os lobos. Chapeuzinho Vermelho lembra a mal\u00edcia necess\u00e1ria para vivermos essa rela\u00e7\u00e3o com o lobo \u2013 as adversidades da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conto \u201cA pequena vendedora de f\u00f3sforos\u201d, de Hans Christian Andersen, narra a hist\u00f3ria de uma menina pobre que nas v\u00e9speras do ano-novo, nas ruas frias e escuras, estava com um p\u00e9 descal\u00e7o e sem nada para cobrir-lhe a cabe\u00e7a. Os cheiros dos gansos assados se espalhavam pelas ruas. Vendia f\u00f3sforos, mas nesse dia temia voltar para casa. N\u00e3o vendera nada, e seu pai iria surr\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era proibida de usar os f\u00f3sforos. Transgrediu e riscou um deles. Viu-se desfrutando do calor frente a uma luxuosa lareira, mas logo que a chama do f\u00f3sforo se apagou tudo desapareceu. Riscou o segundo, e um ganso assado veio em sua dire\u00e7\u00e3o, mas tudo desapareceu quando a luz do f\u00f3sforo se apagou. Acendeu o terceiro e viu uma bela \u00e1rvore de Natal cheia de velas que foram subindo para virar estrelas. Uma delas, uma estrela cadente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela acreditava que quando aparecesse uma estrela cadente algu\u00e9m iria morrer. Riscou mais outro e viu a av\u00f3 que a amava, mas havia morrido. Para n\u00e3o perder esse momento, passou a riscar todos os outros palitos at\u00e9 que a sua av\u00f3 a carregou. Voaram em esplendor e alegria para onde n\u00e3o h\u00e1 frio, nem fome e nem dor. Estavam com Deus. Encontraram o corpo morto da menina com um sorriso no rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada um de n\u00f3s existe uma crian\u00e7a perversamente abandonada ao frio da falta de afeto. Quando recebemos emo\u00e7\u00f5es calorosas, mesmo poucas, como a chama de um f\u00f3sforo, sentimos o encanto de algum prazer que a vida nos possa oferecer. Essa priva\u00e7\u00e3o, t\u00e3o ligada ao patriarcado, \u00e0 gan\u00e2ncia capitalista, nos impede a express\u00e3o livre da criatividade. A desobedi\u00eancia da menina permitiu-lhe viver o fant\u00e1stico. Viu numa lareira, uma fonte, mesmo ef\u00eamera, de carinho e satisfa\u00e7\u00e3o dos sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fome de humanidade lhe atingira por meio de um ganso assado que agu\u00e7ava olfato e paladar. Atendia ao desejo da fome de afeto, de forma curta, como acontece no ato sexual com apenas a experi\u00eancia corporal, sem amor ou envolvimento. Diz Jung que da mesma forma que a ferida tem a marca da arma que a provocou, assim tamb\u00e9m o afeto corresponde ao ato da viol\u00eancia que lhe deu origem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos de uma estrutura ps\u00edquica como fonte de amor e ternura. Se n\u00e3o existiu, nossa condi\u00e7\u00e3o humana exige que ela exista e fa\u00e7a esse processo desativado desviar de sua necessidade natural e se revelar na doen\u00e7a, que muitas vezes aparece em intensidade sexual, para efeitos de saciar desejos corporais sem que se possa apreciar a estrela cadente que anuncia possibilidade de mudan\u00e7a. Talvez por isso apare\u00e7a o p\u00e9 descal\u00e7o. Como s\u00edmbolo do desencontro humano \u2013 solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrela cadente aparece como a anunciar a morte de um v\u00ednculo afetivo insubstitu\u00edvel. Assim morre dentro de cada um a menina que carrega o amor, a gratid\u00e3o, e todos os sentimentos que deixam o ser existindo. A pobreza de nosso esp\u00edrito nos assusta. Precisamos do encanto que as estrelas cadentes trazem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os mitos antigos, as estrelas cadentes eram batalhas entre os deuses que espionavam os homens, da\u00ed ser o melhor momento para se fazer um pedido. Como bom ou mau press\u00e1gio, a tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 fala de anjos e dem\u00f4nios ca\u00eddos do c\u00e9u. Poderiam ser as l\u00e1grimas da lua prevendo uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal trag\u00e9dia para o eu pode ser um renascimento para a psique como um todo ou para Deus. A crian\u00e7a representativa de uma alma que sofre e pede um m\u00ednimo de calor afetivo precisou riscar um palito ap\u00f3s o outro para segurar esse afeto maior de uma fonte de amor e ternura. S\u00e3o unidades de afetos que, por sua repeti\u00e7\u00e3o, conseguem manter esse estado de plenitude at\u00e9 o momento final que eterniza um sorriso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pobreza de afeto pode corresponder a vida farta de afazeres que nos subtrai o tempo de apreciar as estrelas. A menina pobre que nos habita, carente de afeto, vive o calor das pequenas chamas, com t\u00e3o breve desfrutar do que deseja, tem na estrela cadente o aviso de um renascimento para um outro modo de viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano termina como a morte que ronda o ano que chega como o renascimento que vibra em cada um. N\u00e3o podemos ser impass\u00edveis. N\u00e3o h\u00e1 vida sem s\u00edmbolos. Muita vez estamos como a menina: morrendo com o frio afetivo. Por\u00e9m ao cair da noite quando o universo se revela em sua grandiosidade, n\u00f3s nos aquecemos quando transgredimos nossas leis internas r\u00edgidas, patriarcais, para nos permitir viver a experi\u00eancia do fant\u00e1stico que a vida simb\u00f3lica pode trazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prof. Carlos S\u00e3o Paulo \u00e9 fundador do IJBA<br \/>\nProfessor convidado do IJEP<\/p>\n<p>Artigo publicado originalmente no<a href=\"https:\/\/www.ijep.com.br\/index.php?sec=artigos&amp;id=246&amp;ref=a-pequena-vendedora-de-fosforos#conteudo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0<span style=\"color: #000000;\">I<span style=\"color: #808080;\">nstituto Junguiano de Ensino e Pesquisa<\/span><\/span><\/a><\/p>\n<blockquote>\n<p id=\"NzU3NzUw\">Sou eu pr\u00f3prio uma quest\u00e3o colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contr\u00e1rio, estarei reduzido \u00e0 resposta que o mundo me der.<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><a href=\"https:\/\/www.pensador.com\/autor\/carl_jung\/\"><span style=\"color: #808080;\">Carl Jung<\/span><\/a><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"I Don&#039;t Want To Talk About It (from One Night Only! Rod Stewart Live at Royal Albert Hall)\" width=\"584\" height=\"329\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/w46bWxS9IjY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sonhos s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o falsificadas da atividade criativa inconsciente. Carl Jung Os Contos de Fada s\u00e3o escritos para entreter as crian\u00e7as. 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