{"id":3673,"date":"2016-06-03T16:45:54","date_gmt":"2016-06-03T16:45:54","guid":{"rendered":"https:\/\/memoriasdeumadvogado.com\/?p=3673"},"modified":"2022-11-09T22:05:53","modified_gmt":"2022-11-09T22:05:53","slug":"a-morte-o-tempo-e-o-velho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriasdeumadvogado.com\/?p=3673","title":{"rendered":"A Morte, o Tempo e o Velho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O homem se via envelhecer, sem protesto contra o tempo. Ansiava, sim, que a morte chegasse. Que chegasse t\u00e3o sorrateira e morna como lhe surgiram as mulheres da sua vida. Nessa espera n\u00e3o havia amargura. Ele se perguntava: de que valia ter vivido t\u00e3o bons momentos se j\u00e1 n\u00e3o se lembrava deles, nem a mem\u00f3ria de sua exist\u00eancia lhe pertencia? Em hora de balan\u00e7o: nunca tivera nada de que fosse dono, nunca houve de quem fosse cativo. S\u00f3 ele teve o que n\u00e3o tinha posse: saudade, fome, amores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a morte tardasse, decidiu meter-se na estrada e caminhar ao seu encontro. Tomou a direc\u00e7\u00e3o do oeste. Na sombra desse ponto cardeal, todos sabemos se encontra a moradia da morte. Iniciou a sua excurs\u00e3o rumo ao poente sem que de ningu\u00e9m se despedisse. Os adeuses s\u00e3o assunto dos vivos e ele se queria j\u00e1 na outra vertente do tempo. Caminhava h\u00e1 semanas quando avistou um homem alto, um rosto de enevoados tra\u00e7os. Trazia pela trela um bicho estranho, entre c\u00e3o e hiena. Animal mal-aparentado, com ar maleitoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Esta \u00e9 a morte \u2013 disse o homem apontando o c\u00e3o. E acrescentou \u2013 Sou eu que a passeio pelo mundo. \u2013 E voc\u00ea quem \u00e9?\u2013 Eu sou o Tempo.E explicou que caminhavam assim, atrelados um ao outro, desde sempre. Ultimamente, por\u00e9m, a Morte andava esmorecida, quase desqualificada. Raz\u00e3o de que, entre os vivantes, se desfalecia agora a molhos vistos, por d\u00e1 c\u00e1 nenhuma palha. Morria-se mesmo sem interven\u00e7\u00e3o dela, da Morte. O velho, desiludido, explicou ao Tempo a raz\u00e3o da sua viagem. Ele vinha ao encontro da Morte: \u2013 Eu queria que ela me levasse para o sem retorno. \u2013 Vai ser dif\u00edcil.\u00a0 \u2013 Lhe imploro: fiz todo este caminho para ela me levar. \u2013 Veja como ela anda: desmotivada, focinho pelo ch\u00e3o. \u2013 Mas eu queria tanto terminar-me! Imposs\u00edvel, insistiu o Tempo. E para comprovar, soltou o animal. O bicho se afastou, arrastado e ag\u00f3nico, para o fundo de uma valeta. Ali se enroscou decadente como um pano gasto. O velho se condoeu e perguntou ao bicho: \u2013 O que posso fazer por si? \u2013 Eu s\u00f3 quero beber. N\u00e3o era de \u00e1gua a sua sede. Queria palavras. N\u00e3o dessas de uso e abuso nas palavras tenras como o capim depois da chuva. Essas de reacender cren\u00e7as. O velho prometeu garimpar entre todos os seus vocabul\u00e1rios e encontrar l\u00e1 os materiais de reacender o mais perdido f\u00f4lego. Urdia, seu secreto plano: iria ao sonho e de l\u00e1 retiraria uma paix\u00e3o de palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 seguinte, foi de encontro \u00e0 besta moribunda. O bicho estava agora mais hiena que c\u00e3o. Uma baba amarela lhe escorria pelo focinho. Apenas revirou os olhos quando sentiu o homem se aproximar. \u2013 Trouxe? E ele lhe entregou o sonho, as palavras, mais seu inebriamento. O animal sugou tudo aquilo com voracidade. Seus olhos eram os de uma crian\u00e7a sorvendo est\u00f3ria antes do sono. E assim se seguiram durante umas manh\u00e3s. Em cada uma, o velho se anichava e confiava seus elixires. De cada vez, o bicho se animava mais um pouco. No final, a Morte se recomp\u00f4s com tais pujan\u00e7as que o velho ganhou coragem e lhe apresentou o pedido, seu anseio de que o mundo se lhe fechasse. A Morte escutou o pedido de olhos fechados. \u2013 Amanh\u00e3 vou cumprir o meu mandato \u2013 anunciou ela. Nessa noite, o velho nem dormiu, posto perante a sua \u00faltima noite. Sentindo-se derradeiras, passou em revista a sua vida. Nos \u00faltimos anos, ele tinha perdido a inteira mem\u00f3ria. Mas agora, naquela noite, lhe revieram os momentos de felicidade, toda a sua exist\u00eancia se lhe desfilou. e sentiu saudade, melancolia por n\u00e3o poder revisitar amigos, terras e mulheres. at\u00e9 lhe assaltou a ideia de escapar dali e reganhar aventuras no caminho da vida. Para n\u00e3o ser atacado por mais recorda\u00e7\u00f5es \u2013 com o risco do arrependimento \u2013 ele foi ao rio e caminhou ao sabor da corrente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andar no sentido da \u00e1gua \u00e9 o modo melhor para nos lavarmos das lembran\u00e7as. No dia seguinte, o velho foi \u00e0 valeta onde encontrou a Morte. Ela estava cansada, respira\u00e7\u00e3o ofegante. E disse:\u2013 J\u00e1 matei.\u2013 Matou? Matou quem?\u2013 Matei o Tempo!E apontou o corpo desfalecido do homem alto. A hiena, ent\u00e3o, estendeu a trela ao velho e lhe ordenou:\u2013 Agora leva-me tu a passear!<\/p>\n<p>Conto extra\u00eddo do livro \u201cNa berma de nenhuma Estrada\u201d, da <a href=\"https:\/\/www.caminho.leya.com\/pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Editorial Caminho. <\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1973-Secos e Molhados - Sangue Latino\" width=\"584\" height=\"438\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BliqScxpNRs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O homem se via envelhecer, sem protesto contra o tempo. Ansiava, sim, que a morte chegasse. Que chegasse t\u00e3o sorrateira e morna como lhe surgiram as mulheres da sua vida. Nessa espera n\u00e3o havia amargura. 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